Marques da Silva: um arquiteto que moldou o Porto

O Porto é uma cidade de grandes arquitetos. Temos a famosa Escola do Porto, temos Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura, arquitetos premiados internacionalmente. Mas, como sabemos, nada é de geração espontânea. Isaac Newton, em 1675, escreveu "Se eu vi mais longe, é por estar sobre os ombros de gigantes", querendo dizer que o progresso intelectual presente, parte sempre do conhecimento adquirido pelos que nos precederam. E, na arquitetura do Porto, um destes gigantes, sobre os ombros dos quais os atuais se puderam apoiar, foi José Marques da Silva. Vamos saber mais...

Manuel de Sousa

Diz o povo que "as histórias são como as cerejas" e, na verdade, quando o Porto é o tema, tudo parece estar encadeado. Uma história traz-nos à memória outra e depois mais outra e por aí fora... Isto para dizer que este artiguinho surgiu na sequência dos que escrevi sobre a nossa praça da Batalha, mais concretamente sobre o atual Teatro de São João e o seu autor.

Construção do Teatro de São João; foto de 1912 [AML | Porto Desaparecido]

Foi José Marques da Silva (1869-1947) que deu vida ao novo São João, após o antigo teatro ter sido reduzido a cinzas, em 1908. Demonstrando uma mestria única, Marques da Silva apresentou um edifício-monumento que dá coerência à irregularidade urbana que, como vimos, constitui a própria praça da Batalha. Recorrendo a um ecletismo estético muito próprio, o arquiteto segue o desenho clássico do teatro à italiana, mas organiza os espaços – átrios, escadas, salão nobre – à francesa, seguindo o modelo da parisiense Ópera Garnier, por trás de uma imponente frontaria guarnecida por quatro colunas jónicas.

Formação parisiense

José Marques da Silva nasceu, em 1869, no n.º 113 da rua de Costa Cabral. Neto de lavradores, foi o mais velho de dez filhos de um pedreiro e marmorista. Iniciou a sua formação como arquiteto na Academia Portuense de Belas-Artes, onde foi aluno do pintor Marques de Oliveira (1853-1927) e do escultor Soares dos Reis (1847-1889). Mas depois, a expensas paternas, pôde ir para Paris onde ingressou na École Nationale et Spéciale des Beaux-Arts, desenvolvendo trabalho no ateliê de Victor Laloux (1850-1937), autor da Gare d'Orsay, estação ferroviária, hoje transformada num belíssimo museu. Aí conviveu, entre outros, com o arq.º Miguel Ventura Terra (1866-1919), que já conhecia das Belas-Artes do Porto.

Terminou o curso em Paris em 1896, quando, na sua terra natal, o comboio chegava a São Bento, com uns barracões de madeira a servir de gare provisória, por entre os escombros do antigo mosteiro de São Bento da Ave-Maria, ainda em demolição. Como projeto de final de curso, o jovem Marques da Silva escolheu, precisamente, a "Gare Central do Porto".

Bilhete-postal do átrio da estação de São Bento; foto de c.1920 [Ed. J.O. | Porto Desaparecido]

Regressado ao Porto, com o ambicionado canudo de Arquiteto Diplomado pelo Governo Francês, Marques da Silva apressou-se a apresentar o seu projeto da nova estação ferroviária à Câmara Municipal do Porto. Era uma solução à justa medida das necessidades da cidade, deixando transparecer influências da gare d'Orsay de Victor Laloux. No entanto, não se pense que a Câmara se rendeu imediatamente às soluções trazidas de Paris... O jovem arquiteto teve de desenvolver várias versões do projeto, submetendo-se aos ditames de comissões sucessivas, até à sua aprovação final e construção. Apesar de a primeira pedra ter sido colocada em 1900, pelo rei D. Carlos e pela rainha D. Amélia, a estação só foi inaugurada em 1916, precisamente na republicana data de 5 de outubro.

Mais de cem anos volvidos desde a inauguração, a estação de São Bento é hoje considerada uma das mais belas do mundo.

Edifício Quatro Estações, na rua das Carmelitas; foto de 1905 [Fundação Marques da Silva | Porto Desaparecido]

Um arquiteto profícuo

Mas, por essa altura, Marques da Silva já tinha obra pela cidade. No n.º 100 da rua das Carmelitas fica o edifício das Quatro Estações, de 1905, onde o arquiteto chegou a habitar. Ostenta quatro relevos representativos das estações do ano, encimando cada uma das pilastras que marcam o alçado. Trata-se de um belíssimo edifício, com uma fachada beaux-arts – estilo arquitetónico que combina influências gregas e romanas com elementos renascentistas.

Palácio do Conde de Vizela; foto de c.1930 [monumentosdesaparecidos.blogspot.com | Porto Desaparecido]

Um pouco mais abaixo, e ocupando todo o quarteirão, fica o chamado Palácio do Conde de Vizela, construído para albergar os escritórios da Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela, lojas comerciais e o Clube Portuense. Foi mandado erguer por Diogo José Cabral (1864-1923), grande capitalista e primeiro conde de Vizela. Com projeto inicial de Émile Boutin, Marques da Silva assumiu a direção da obra em 1920, introduzindo reformulações e ajustando-o a uma nova tipologia, valorizando esteticamente o edifício e o quarteirão.

Edifício da companhia de seguros A Nacional, uma construção de estilo renascença flamenga; foto de c.1965 [Alvão | Porto Desaparecido]

Começada a abrir no mesmo ano da inauguração da estação de São Bento, a avenida dos Aliados ostenta claramente o traço de Marques da Silva. O seu arranque é demarcado por dois edifícios monumentais: A Nacional e edifício Pinto Leite. O(A) leitor(a) certamente já ficou impressionado(a) com a extraordinária filigrana decorativa destes prédios. Mas não pense que aquelas formas foram esculpidas no granito. Estes são edifícios que aproveitam já as potencialidades oferecidas pela nova tecnologia construtiva do betão armado.

Edifícios A Nacional (à esquerda) e Pinto Leite (à direita) marcam o arranque da avenida dos Aliados; foto de c.1950 [Teófilo Rego; CMP - Arquivo Histórico Municipal | Porto Desaparecido]

Sendo um dos arquitetos mais profícuos da cidade do Porto (e não só...), Marques da Silva é autor do edifício dos Grandes Armazéns Nascimento (esquina de Santa Catarina com Passos Manuel), do prédio António Enes Baganha (rua do Rosário, 127), da casa de Allen (rua de António Cardoso, 175), do Monumento aos Heróis das Guerras Peninsulares (na Rotunda, em coautoria com Alves de Sousa), para além de escolas (Rodrigues de Freitas e Alexandre Herculano), bairros operários (Constituição), jazigos (cemitério da Lapa, onde está sepultado), igrejas (São Torcato e Penha, em Guimarães), entre outras obras no Porto, Matosinhos, Vila Nova de Gaia, Guimarães, Barcelos e Braga. Lecionou no Instituto Industrial e Comercial do Porto, na Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis e na Escola de Belas-Artes do Porto, onde foi diretor.

Projeto das fachadas de Santa Catarina e de Passos Manuel dos Grandes Armazéns Nascimento; projeto de 1914 [CMP, Arquivo Histórico Municipal]

Uma das últimas obras de Marques da Silva foi a Casa de Serralves, terminada em 1943. Partiu de um projeto solicitado pelo conde de Vizela para ampliação da velha moradia da família. Marques da Silva foi acompanhando o projeto até ao fim, mas sabemos que resultou do contributo de outros arquitetos e decoradores franceses, nomeadamente Émile-Jacques Ruhlmann, Charles Siclis, Jacques Gréber e Alfred Porteneuve.

Construção da Casa de Serralves; foto de c.1940 [Serralves]

Legado

Marques da Silva soube interpretar os desejos de uma cidade em crescimento e com uma clara necessidade de afirmação – como era o Porto na passagem do século XIX para o XX –, apresentando soluções concretas para os muitos problemas urbanos. Desenvolveu um modo muito próprio de interpretar a cidade, adaptando os valores da tradição às dinâmicas da vida moderna. Deixou um legado duradouro na cultura arquitetónica portuense, nas práticas de ensino e numa certa forma de pensar a arquitetura que se foi consolidando no Porto ao longo do século XX.

Faleceu em 1947, na sua casa-ateliê, na praça do Marquês de Pombal, onde atualmente funciona a Fundação Instituto Arquiteto José Marques da Silva (FIMS). Criada em 2009, esta fundação tem como missão a promoção científica, cultural, formativa e artística do património arquitetónico de Marques da Silva.

Casa-ateliê Marques da Silva, na praça do Marquês de Pombal; foto de 2021 [Manuel de Sousa]

Caro(a) leitor(a), espero que tenha gostado deste artigo. Continue a acompanhar este blogue!

Para saber mais:
  • CARDOSO, A. (1997). O arquitecto José Marques da Silva e a arquitectura no Norte do País na primeira metade do séc. XX. Porto: FAUP [disponível online].
  • CARDOSO, A., EMANUEL, C., TAVARES, D. (2019). Estação S. Bento: Marques da Silva. Porto: Edições Afrontamento [compre online].
  • FIGUEIRA, J., PROVIDÊNCIA, P. GRANDE, N. (eds.) (2001). Guia de arquitectura moderna Porto 1901-2001. Porto: Ordem dos Arquitetos SRN, Civilização.
  • PINTO, A.I.F.E. (2012) Da arquitectura de Marques da Silva e Oliveira Ferreira: Para um retrato portuense nas primeiras décadas do século XX. Porto: FAUP [disponível online].
  • RAMOS, R.J.G (coord.) (2011). Leituras de Marques da Silva /Readings of Marques da Silva: Reexaminar a modernidade no início do século XXI. Porto: Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva [compre online].
  • SOUSA, M. (2017). Porto d'honra: Histórias, segredos e curiosidade da Invicta ao longo dos tempos. Lisboa: A Esfera dos Livros [compre online].

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