Recordar a Exposição Colonial de 1934

Na Exposição Colonial de 1934, os portuenses puderam observar indígenas das diversas colónias em simulacros de vida quotidiana nas suas aldeias autóctones. Apesar do enorme sucesso que alcançou, o evento caiu quase completamente no esquecimento. Mas trata-se de algo que não deve ser esquecido. Vamos recordar.

Manuel de Sousa

Palácio de Cristal transformado em Palácio das Colónias para a Exposição Colonial; foto de 1934 [Alvão | Porto Desaparecido]

Ao longo do século XV, os navegadores portugueses foram explorando a costa africana. No entanto, uma vez descoberto o caminho marítimo para a Índia (1498), as atenções nacionais centraram-se no lucrativo comércio com o Oriente. Enfraquecido o domínio português na Ásia, em virtude da concorrência de outras potências europeias, o Brasil apresentou-se com a grande aposta da colonização portuguesa. Durante quase quatro séculos, a costa de África contou com escassíssima população europeia, funcionando, fundamentalmente, como fonte de pessoas escravizadas para a grande colónia sul-americana.

Reconhecida a independência do Brasil em 1825, Portugal voltou-se finalmente para os territórios africanos. No entanto, a atitude nacional em relação a estes territórios oscilou entre a indiferença e a exaltação, designadamente aquando do Ultimatum britânico de 1890.

Mas foi com o Estado Novo que a propaganda colonial conheceu um incremento notório, ao qual não foi alheia a figura de Henrique Galvão, um dos jovens militares que aderiram ao golpe de 28 de maio de 1926 (que pôs fim à Primeira República e instaurou uma ditadura militar) e que, muito mais tarde, em 1961, se tornaria mundialmente célebre a propósito do desvio do paquete "Santa Maria".

"Civilizar as populações indígenas"

Apresentando-a como a continuação direta das navegações quinhentistas, Salazar transformou a empresa colonial na própria razão de ser da nacionalidade portuguesa. O célebre Ato Colonial, afirmava categoricamente que "é da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam". Estes princípios foram, a seguir, incorporados na Constituição de 1933.

Foi neste contexto que, ao longo da década de 1930, se organizaram vários congressos, conferências e exposições sobre as colónias portuguesas e a sua relação com a metrópole, sendo de destacar a Primeira Exposição Colonial Portuguesa, realizada no Porto em 1934.

Organizada pela Agência Geral das Colónias e inaugurada em sessão solene no Palácio da Bolsa, a exposição abriu as portas a 16 de junho de 1934 no Palácio de Cristal. Segundo Henrique Galvão – o comissário da exposição –, este evento "foi a primeira lição de colonialismo dada ao povo português", proporcionando uma viagem pelos diversos espaços do império.

Grupos de escolas, infantários, orfanatos, institutos, quartéis, sindicatos corporativos e muitos populares acorreram de todo o país para esta volta ao mundo colonial português. Os padres exortavam os paroquianos a visitar a exposição, os patrões ofereciam bilhetes aos seus operários, os professores traziam os seus alunos... Disponibilizando 21 comboios especiais, a CP organizou uma excursão nacional, transportando cerca de cinco mil pessoas para assistirem ao que o ministro das Colónias, Armindo Monteiro, apelidou de "prova material da extensão do poder criador e da virilidade das províncias ultramarinas de Portugal".

As instituições da cidade, orgulhosas pelo facto de o governo ter escolhido o Porto para acolher tão importante evento, não se pouparam a esforços. Câmara Municipal, diocese, associações comerciais e industriais, universidade, empresas, clubes privados, enfim, todos se mobilizaram para que o evento fosse visitado pelo maior número de pessoas possível.

Cartaz Portugal não é um país pequeno; 1934 [BNP]


"Portugal não é um país pequeno"

Durante a exposição foi publicado o cartaz Portugal não é um país pequeno, no qual as superfícies das diversas colónias portuguesas eram sobrepostas a um mapa da Europa, esquecendo que muitos dos países europeus eram, também eles, detentores de vastíssimas possessões ultramarinas, por regra, maiores do que as portuguesas. Para divulgar e promover a exposição, foram cunhadas medalhas, emitidos selos e produzida uma vasta parafernália de souvenirs, para além da edição de guias, panfletos e brochuras, devidamente ilustrados. Entre estas publicações destaca-se o Álbum Fotográfico da 1.ª Exposição Colonial Portuguesa de Domingos Alvão.

Emissão filatélica comemorativa da Exposição Colonial de 1934, com desenhos de Almada Negreiros [Casa da Moeda | Porto Desaparecido]

Fotógrafo portuense, Domingos Alvão era conhecido pelas suas cenas campestres – meticulosamente trabalhadas em termos de enquadramento, luminosidade e pose das personagens fotografadas. Premiado internacionalmente, Alvão recebia numerosas encomendas para trabalhos fotográficos por parte do Estado, de empresas e de particulares. É neste contexto que surge, em 1934, a concessão a Domingos Alvão do exclusivo do registo fotográfico da Exposição Colonial Portuguesa. O seu contributo para a difusão da exposição e a popularização da temática colonial, valeu-lhe a atribuição da Ordem Militar de Cristo, em 1935. Já agora, diga-se que a Fotografia Alvão continua a funcionar, na rua de Santa Catarina, mesmo ao lado do icónico Café Majestic, sendo uma loja histórica, reconhecida pelo programa "Porto de Tradição" da Câmara do Porto.

Folheto da Exposição Colonial; 1934 [BNP]

Uma vez entrados no recinto da exposição, os visitantes eram acolhidos num largo oval, a que foi dado o nome de praça do Império, no meio do qual estava o Monumento ao Esforço Colonizador Português. Em forma de obelisco, este monumento foi projetado por Alberto Ponce de Castro e está hoje colocado na, também chamada, praça do Império, mas na Foz do Douro. Encimado pelas armas nacionais, o obelisco ostenta, na base, seis esculturas estilizadas simbolizando as figuras homenageadas no esforço colonizador: o militar, o missionário, o médico, a mulher, o comerciante e o agricultor.

Logo atrás, ficava o Palácio das Colónias que não era mais do que o edifício do antigo Palácio de Cristal – à época já com quase setenta anos de existência – ao qual foi sobreposta uma fachada efémera em estafe, em tons claros e ao gosto art-déco, da responsabilidade de Mouton Osório. As datas "1415" e "1934", estavam bem patentes em cada uma das alas do edifício, remetendo o início do império colonial à conquista de Ceuta, assim filiando o colonialismo do século XX nas primeiras conquistas, navegações e descobertas.

Interior do Palácio das Colónias; foto de 1934 [Alvão]

O interior do Palácio das Colónias tinha, também, a sua estrutura de ferro coberta por colunas lisas, capitéis cúbicos e lintéis retos, para além de uma profusão de grandes painéis cobrindo o teto, com paisagens das colónias. Aqui expunham-se materiais das missões religiosas, maquetas de comboios e de estações ferroviárias, mostruários da Escola de Medicina Tropical e da secção da navegação, com a estátua do Homem do Leme, de Américo Gomes – atualmente no passeio da avenida de Montevideu, em frente ao mar.

Expunham-se, também, trabalhos de antropologia e anatomia científica, da responsabilidade do Instituto de Antropologia e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, com réplicas de cabeças de africanos e orientais feitas a partir de moldes de crânios, procurando representar a diversidade dos tipos raciais do império.

Em locais de destaque, eram visíveis frases de exaltação nacionalista, ressaltando a missão civilizadora de Portugal: "Damos aos indígenas as melhores condições de trabalho", "Incuti nos vossos filhos o orgulho pela obra portuguesa de colonização", "Portugueses: as colónias precisam do vosso esforço" e, ainda, uma citação de Salazar: "Portugal pode, se nós quisermos, ser uma grande e próspera nação. Sê-lo-á."

"Vamos ver os pretos!"

No entanto, as principais atrações encontravam-se no exterior. Ao longo dos amplos jardins do Palácio de Cristal, havia reproduções de monumentos célebres – como o Arco dos Vice-Reis, de Goa, ou o Farol da Guia, de Macau –, para além de stands comerciais, cafés e restaurantes. Durante a duração do certame, realizaram-se récitas, espetáculos de teatro, atuações de batuques indígenas, exposições artísticas, exibições de filmes, para além das animações do Luna Parque. Todo o recinto podia ser visitado num circuito a bordo do comboio colonial ou através de um teleférico.

Comboio colonial nos jardins do Palácio de Cristal; foto de 1934 [Alvão | Porto Desaparecido]

Em cinco meses de trabalho, nos jardins do Palácio de Cristal foram erguidas recriações de aldeias nativas dos diversos pontos do império, povoadas por encantadores de serpentes da Índia Portuguesa, 63 indígenas da Guiné, 104 soldados da 5.ª Companhia Indígena de Moçambique – os landins –, para além de representantes de Angola, Cabo Verde, Timor e Macau. Segundo algumas fontes, o total de nativos trazidos para a exposição ascendeu aos 324 indivíduos.

Tal como os animais selvagens do pequeno parque zoológico  alguns(mas) leitores(as) ainda se lembrarão do macaco Chico e do leão Sofala , também os indígenas das colónias foram trazidos para serem expostos aos olhares curiosos dos cerca de um milhão e trezentos mil visitantes que afluíram ao local, ao longo dos dois meses e meio que durou a exposição.

Macaenses na Exposição Colonial; foto de 1934 [Alvão]

Analisando os registos fotográficos de Domingos Alvão, podemos ver grupos de Macau, de Timor, do Estado da Índia, tribos da Guiné, entre outros. Mas é logo percetível uma clara distinção entre os naturais das diversas colónias. Macaenses e indianos, por exemplo, são representados como portadores de culturas sofisticadas, mesmo que exóticas, aos olhos do português médio da época. Já os africanos, nomeadamente os guineenses, surgem-nos como povos primitivos e seminus, como que esperando pelo labor civilizacional de Portugal. Uma pequena criança guineense, o Augusto, tornou-se mesmo o mascote da exposição.

Atriz Amélia Rey Colaço com o Augusto ao colo; foto de 1934 [Alvão | Wikimedia Commons]

São precisamente os indígenas guineenses – e, ainda mais, as indígenas – que mais atraíram a atenção dos visitantes da exposição. Henrique Galvão refere que era com entusiasmo que alguns visitantes diziam: "Vamos ver os pretos!" A julgar pela imprensa da época, foi este arraial de exotismo, que foi a reconstituição do império em miniatura, que mais atraiu os visitantes.

O pequeno Augusto em anúncios publicitários a marcas de vinho e de tabaco; 1934 [Porto Desaparecido]

Uma mulher guineense de etnia balanta  a Rosinha  atraiu especialmente a atenção de Domingos Alvão que a fotografou repetidamente. Tornaram-se famosas as fotografias de Rosinha em pose, de braços erguidos, acentuando a exposição dos seios. Estas imagens foram, na época, amplamente reproduzidas em postais e capas de revistas de grande circulação, algo impensável se, ao invés de uma indígena africana, estivéssemos perante uma branca metropolitana.

Bilhete-postal da aldeia dos balantas na Exposição Colonial, com Rosinha; foto de 1934 [Alvão | Wikimedia Commons]

O Jornal de Notícias organizou um concurso para a eleição da "Rainha das Colónias", publicando imagens de cada uma das concorrentes, chamando à atenção para os "corpos de ébano" das "Vénus negras". Poucos dias antes do encerramento da exposição, realizou-se o desfile das candidatas e conheceu-se a vencedora. O júri, presidido pelo próprio Henrique Galvão, determinou a vencedora segundo a duração dos aplausos. O título coube à filha do soba angolano do Quipungo (localidade rebatizada como Vila de Paiva Couceiro), aplaudida pelo público durante sete minutos. Rosinha e outra jovem, Inês, foram feitas damas de honor.

O encerramento da exposição, a 30 de setembro de 1934, ficou marcado pela realização de um grandioso cortejo alegórico, integrando dezenas de carros alusivos e centenas de figurantes de diversas regiões metropolitanas e coloniais. Teve início no largo fronteiro ao Castelo do Queijo, em Nevogilde, e terminou nos jardins do Palácio de Cristal, percorrendo muitas ruas da cidade do Porto. O cortejo foi presenciado por dezenas de milhares de pessoas.

O esquecimento

Conhecemos várias cartas, escritas após o evento, por parte de elementos dos grupos guineenses dos bijagós, dos balantas, dos mandingas e dos manjacos, queixando-se de que tiveram de trabalhar incansavelmente na construção das aldeias onde viveram durante quatro meses, que eram obrigados e estar permanentemente à disposição do público durante todos os dias, sem descanso, e que, depois do anoitecer, ainda tinham que fazer dois espetáculos por noite em teatros e cinemas. E tudo suportaram, porque lhes tinham sido prometidas boas retribuições, acabando por nada receber, o que os tornou motivo de troça nas suas terras. Sentiram-se enganados!

Não chegaram até nós quaisquer relatos das mulheres guineenses que nos permitam saber o que pensaram e como se sentiram durante a sua estada no Porto. Mas não será difícil imaginar. Estavam num país estranho, de clima agreste, cuja língua pouco ou nada entendiam, percebendo que a sua nudez, apesar de adequada na sua terra natal, era ali completamente desajustada, fazendo delas objeto involuntário de atração e cobiça.

Na verdade, a imprensa da época noticia vários comportamentos impróprios por parte de visitantes em relação às jovens guineenses. Alguns visitavam a exposição repetidamente com o único intuito de observar a nudez das jovens, fixando-as durante horas e dirigindo-lhes propostas indecorosas. Sabemos que um homem tentou beijar uma indígena e acabou sendo multado em oitocentos escudos.

Monumento ao Esforço Colonizador Português, na praça do Império, Foz do Douro; foto de 2014 [Vítor Oliveira | Wikimedia Commons].

Caro(a) leitor(a), tudo isto se passou nos pacatos jardins do Palácio de Cristal, da nossa cidade do Porto, há 87 anos. Estátuas e monumentos de exaltação nacionalista, erguidos para a Exposição Colonial, foram mantidos e ainda hoje estão espalhados por vários pontos da cidade, alguns divulgados oficialmente como atrações turísticas, de forma acrítica e sem qualquer contextualização histórica. Não há nada que recorde a Exposição Colonial de 1934 e o que ela representou, tendo o evento sido completamente apagado da memória coletiva portuense. Para conhecer melhor este triste episódio da história do Porto do século XX, convido-o(a) também a ver este vídeo.

Para saber mais:

  • GARRAIO, J. (2016). Perdidas na exposição? Desafiar o imaginário colonial português através de fotografias de mulheres negras. Geometrias da memória: configurações pós-coloniais. Porto: Afrontamento, pp. 279-303 [disponível online].
  • MARRONI, L. (2016). Experiências de colonialismo no Porto de 1934, na Primeira Exposição Colonial Portuguesa. Direitos e Dignidade: Trajetórias e experiências de luta. IX Congresso Ibérico de Estudos Africanos. Coimbra: Centro de Estudos Sociais, pp. 67-87 [disponível online].
  • MATOS, P.F. (2012). As côres do império: Representações raciais no Império Colonial Português. 2.ª ed. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais [compre online].
  • MEDEIROS, A. (2018). Primeira exposição colonial portuguesa (1934). Representação etnográfica e cultura popular moderna. Vozes do Povo: A folclorização em Portugal. Lisboa: Etnográfica Press [disponível online].
  • SERÉN, M.C. (2001). A porta do meio. A Exposição Colonial de 1934: fotografias da Casa Alvão. Porto: Centro Português de Fotografia.
  • SERRA, F. (2016). Visões do império: A 1.ª Exposição Colonial Portuguesa de 1934 e alguns dos seus álbuns. Revista Brasileira de História da Mídia. vol. 5, n.º 1 (jan.-jun.), pp. 45-59 [disponível online].
  • SILVA, F.S.A. (2019). Uma garota propaganda para o império: O caso de Rosinha na Exposição do Porto de 1934. Revista Territórios & Fronteiras. vol. 12, n.º 1 (jan.-jul.), pp. 7-23 [disponível online].

Comentários

  1. Uma tia esteve nesta exposição e , deu-me recentemente uma recordação dessa exposição. Um boneco em pedra-sabão, de um menino negro, que seria o Augusto, que com a Rosinha foram as mascotes da exposição.

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    1. Obrigado por acompanhar este blogue. Cumprimentos

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